Em outubro de 2006 eu e João surtamos com a oportunidade de não pagar nem aluguel nem condomínio e ainda termos uma vaga na garagem. O mundo seria perfeito e todos os nossos problemas estariam resolvidos num passe de mágica tcha-tchin. O maior problema do paraíso era a grande reforma que teria que ser feita. As paredes estavam fracas, ocas, os pisos e os móveis datavam de 1921 e as baratas e os cupins eram amigos e vizinhos de longa data. Então, quando acabamos de fazer a limpeza e jogar tudo fora – e quando eu digo tudo eu digo t-u-d-o inclusive as baratas e os cupins e o cadáver da minha bisavó que morava num armário – nós entramos em obra. Era 3 de março de 2007. Obra que é obra nunca tem prazo para acabar, mas eu me enganei dizendo que em junho TUDO estaria resolvido. Tolinha. Desde então o ano vem se arrastando em poeira, marretadas às 6 da manhã, caminhões de entulho, mais poeira e sujeira, minhas coisas reclusas num quartinho intocado e amontoado de caixas e livros e mais livros, e o meu guarda-roupa montado na sala de jantar da casa dos meus pais arruinando a decoração. A vida de todo mundo virou de cabeça para baixo. Em março eu era a senhora neurótica que media os interruptores me certificando de que eles estavam a 90° do solo, em perfeito alinhamento com o teto e chão e o panorama. Hoje eu sinto a urgência de subir num prédio com um rifle todas as vezes que me perguntam o que eu acho da parede nova e lisinha como bunda de neném. Todos os dias eu saio de casa para o trabalho tropeçando nos sacos de entulho, desaparecendo na bruma que se forma dos milhares de pacotes de cigarro Oscar e Derby fumados e me despeço do Walter e do Manoel, os pedreiros que penduram suas cuecas no banheiro e que eu estou quase convidando para passar o natal e serem padrinhos dos meus filhos, com pouca esperança. Ontem fiquei meia hora na cozinha dos meus pais ameaçando me matar se eles não me ajudassem a agilizar esse processo. Porque parece que eu estou num livro do Kafka presa numa situação que não consigo ir nem pra frente, nem pra trás e ninguém sabe me dizer quando acaba, quando começa, o que é e o que esperar. Daqui a pouco se completa um ano que não acordo numa cama de verdade e não preciso pensar: Será que hoje estamos mais perto de acabar do que ontem?
O que parecia impossível se concretizou, a obra ACABOU. É oficial. Peraí que eu preciso ir ali ficar quatro meses bêbada.
terça-feira, novembro 27, 2007
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