sexta-feira, outubro 19, 2007

white girl

Rio 40 graus. O inferno começa. O asfalto queima, queima, queima. Minha cabeça lateja.

Praça da Bandeira, Zona Norte, Meio-dia. Que péssima combinação.

Eu suando. Suando e gotejando dentro das roupas. Tendo miragens. Vendo a água da piscina que só chega nas férias. O friozinho da noite mesmo que durante o dia tenha feito um sol infernal. E o mato fresquinho. E a cachoeira geladinha. E a cerveja gelando e a hidromassagem ligada. Sauna não, por favor, já faço diariamente bem aqui.

Fico tendo essas visões enquanto os cheiros mais exóticos, típicos do verão, assaltam minhas narinas e se misturam e me embriagam. E fico sorrindo boba pensando que um dia as férias chegam. Um dia eu serei feliz. Logo. Olá desbunde. Sombra. Água fresca. Cigarettes and Alcohol.

Prometo até tentar voltar com uma marquinha de biquíni – mesmo odiando esta prática com todas as minhas forças. Mas na verdade acho mesmo que estou precisando de uma corzinha, já que já começei a causar comoção entre os tijucanos.

Já causei horror no banheiro da faculdade e acabei assustando, dessa vez de forma não intencional, duas meninas loiras, torradas de sol que falavam sem parar sobre como perder peso e academia. No exato momento que entrei, ambas, muito indelicadamente, interromperam a conversa e seus olhos não desgrudaram mais de mim.

Sem saber o que estava errado permaneci lavando as mãos e ajeitando as malditas calças que insistem em cair apesar da largura dos meus quadris. Uns segundos depois, intimidada pelo silêncio e desconfiada, busquei explicação para tamanho espanto no espelho. E lá estava, bem entre as duas garotas-cariocas-swing-sangue-bom, eu azul. Pálida. Comprida. Transparente. Cabelos negros. Olheiras.

Até eu me estranhei. E olhei duas vezes.

Acontece que eu não pego sol. Eu odeio sol. Odeio. E morro de medo de ficar igual a Brigitte Bardot. Sempre lembro da minha mãe dizendo: “Ela ficou assim porque pegou muito sol”. E desde criança tomei duas decisões na minha vida: a de nunca pegar sol e a de nunca ter bochechas caídas como as da Brigitte.

Dia desses uma nova situação embaraçosa. Uma senhora enorme e negra fazia as unhas na minha frente enquanto eu aguardava a minha vez. E ela perguntou:
- Você é branca assim mesmo?
Tive vontade de responder que não, que na verdade eu era verde, mas fui boa e disse que sim. E ela continuou:
- Se você pegar sol você fica vermelha?
Novamente atacada pelo súbito desejo de dizer que não, que na verdade eu ficava roxo repolho. Mas me eduquei e respeitei os seus cabelos brancos. A velha era insaciável.
- Mesmo que você pegue muito sol permanecerá vermelha?
Fiquei calada com aquele sorriso de espasmo na cara. Não quis responder.
- Que pena, não é minha filha?
O soco final.

Está certo que eu já desejei ter nascido negra, grande, com voz de Nina Simone e um pouco de ritmo. Já ouvi tanto blues que achava que se me descascassem eu veria uma cor lá dentro. Mesmo assim não gosto que façam a minha cor atual piada nacional. Eu deveria processar a todos, ficar rica e pagar umas sessões de bronzeamento artificial.

Mas não, eu acho que não.

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